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O escritório de Adriano Soares montou um esquema de fiscalização dos adversários, sob a justificativa de coibir a compra de votos. A infra-estrutura de vigilância montada contava com 250 pessoas, equipadas com câmeras filmadoras e fotográficas e rádio comunicador, 60 carros e 30 motos – para se ter idéia do que significa este aparato, o número de homens do Exército, convocados para garantirem a segurança em Delmiro no dia das eleições, era de cerca de 100. “Pessoas com potencial de compra de votos”, as “mulas”, foram mapeadas anteriormente e eram “monitoradas ostensivamente nos quatro, cinco dias anteriores à eleição”, segundo Adriano Soares. Um motorista e uma pessoa com câmera “monitoravam, perseguiam” e em caso suspeito entravam em contato com “a central” ,que mandava mais pessoal. Às vezes, mais de um carro vigiava uma mesma pessoa. “Mas isso não é para agora não. É para gerar processo depois das eleições”, disse uma jovem com uma câmera DVD na mão. Esse esquema teria gerado uma resposta de 60% a 70% de redução da compra de votos, segundo Soares. Não apenas os cabos eleitorais, mas também os advogados de Cazuza passaram a ser “monitorados e perseguidos”. Uma jovem advogada da equipe de Marcelo Brabo ficou visivelmente abalada: suas mãos trepidavam e o rosto estava pálido depois que seu carro foi seguido na tarde do dia 4 de outubro. Os ânimos se exaltaram entre os advogados. 4 de outubro, por volta de 17h. As duas coligações – representadas por seus respectivos escritórios de advocacia – se reúnem às pressas com os promotores João Batista Santos Filho e Flávio Gomes da Costa. Era preciso conter os ânimos das próprias coligações. Tentou-se fazer um “Termo de Conduta”, que disciplinaria a atuação dos grupos e colocaria limites ao esquema de “fiscalização”. “Não abro mão dela”, disse Adriano Soares. Depois de um bom tempo de discussão e nenhuma solução, o promotor Flávio Gomes fez um pronunciamento decisivo: é inconstitucional, mas em nome da segurança da população de Delmiro Golveia vale o toque de recolher. Todos os presentes aceitaram de prontidão. Era a primeira vez que cada um dos diversos advogados presentes ali, pertencentes a importantes escritórios de advocacia, assinavam um toque de recolher. Mas, naquele momento, quem oferecia risco de segurança à população? Em última instância o toque de recolher foi motivado pela compra de votos. Para evitá-la, surgiu o tal esquema de “fiscalização”, os excessos, a exaltação de ânimos entre os grupos afetados pelo esquema e a necessidade de contê-los. Mas, apesar disso (e deles), a cidade estava calma. Nenhuma ocorrência violenta relacionada às eleições havia sido registrada. O próprio Adriano Soares fez uma avaliação que deixou claro que o toque de recolher não era motivado por problemas ocasionados pela população: “no meu caso, estou achando a cidade muito tranqüila”. Mesmo assim, todos justificavam a medida como necessária à segurança da população, exceto coronel Valdeir da Polícia Militar, o único a abordar o tema com honestidade. O documento que solicitou o toque de recolher foi escrito ali, entre promotores e advogados. Bastava a assinatura do juiz eleitoral Paulo Zacarias para que entrasse em vigor. Valendo, a partir da meia noite. Já tinha anoitecido quando a reunião acabou. Restava pouco tempo para avisar a população. O promotor João Batista seguiu rapidamente para a Rádio Delmiro gravar o conteúdo do documento. Quem de fato viveu as consequências do toque de recolher, a população de Delmiro Golveia, não foi informada sobre a reunião no Fórum Eleitoral e não pode opinar. Tampouco a informação sobre o toque de recolher teve tempo de chegar a todos – ou, quando chegou, foi poucas horas antes da meia noite. |
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